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Quinta-feira, 11 de Fevereiro de 2010
Doença bipolar

Tenho 45 anos (o meu marido 47), não tenho filhos, casei há três anos e gostaríamos muito de ter um filho. Mas tenho algum receio, não só pela minha idade, mas porque sou bipolar do tipo II. Fiz os exames pré-natais, estava tudo normal. Já falei com a minha psiquiatra e comecei o desmame da medicação. Quando estiver grávida (se conseguir...) só tomarei Sedoxil. O que me causa receio são os riscos relacionados com a minha idade e a falta de medicação. Gostaria muito que me desse a sua opinião sincera e profissional sobre a nossa vontade de sermos pais e quais os riscos para mim e para o bebé.


Compreendo bem que deseje ter um filho, pois é uma experiência maravilhosa.

 

No entanto, no seu caso existem questões a ponderar muito bem, o que aliás faz referindo a idade e a paragem da medicação.

 

Em primeiro lugar, a idade avançada faz aumentar o risco de nascerem crianças com síndroma de Down e maiores dificuldades no parto.

 

Quanto à primeira, poderá fazer despiste com amniocentese, também útil para despistar outras alterações genéticas. Depois, é uma opção sua ir para a frente com a gravidez.

 

O segundo aspecto pode ultrapassar-se com uma cesariana, que recomendaria dada a idade e o facto de ser o primeiro filho.

 

Em segundo lugar, coloca-se a questão gravidez e bipolaridade. É uma mistura explosiva pois, apesar do desmame do lítio ser lento (o que está correcto), o risco de recaída é muito elevado (em 100 pessoas, na sua situação, cerca de 70 recaem) não só durante a gravidez como também após o parto.

 

Conte, pois, quase de certeza, com uma crise, mesmo estando estável há anos. Por isso, se propõe que se continue o lítio até saber que está grávida e só depois interromper e retomar após o terceiro mês e não amamentar.

 

Existem blogues na Internet de mães nas suas circunstâncias, que mesmo perante as dificuldades enunciadas, decidiram ter uma criança e escrevem sobre a sua gravidez e pós-parto.

 

Um artigo científico de excelente qualidade sobre estes riscos pode ser lido em http://ajp.psychiatryonline.org/cgi/content/full/164/12/1771.

 

Um casal não se realiza e confirma no seu amor apenas pela paternidade e maternidade biológica. Estas podem ser do coração.

 

Ponderem também, ambos, a hipótese de adoptar uma criança.


 


Publicado por Prof. Mário Simões às 11:59
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Psiquiatra


Professor agregado de Psiquiatria e de Introdução às Ciências da Consciência da Faculdade de Medicina de Lisboa e director dos Cursos de Pós-Graduação de Hipnose em Clínica Médica e Terapia pela Reestruturação Vivencial e Cognitiva do Instituto de Formação Avançada da mesma faculdade, é também regente da cadeira de Psiquiatria e Saúde Mental do Curso de Mestrado de Ciências de Enfermagem do ICBAS no Porto e da cadeira de Psicopatologia Forense do Curso de Mestrado de Ciências Criminais e Comportamentos Desviantes da Universidade Lusófona, em Lisboa.
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